Construído em 1903 por ferrovia britânica em Paranapiacaba, o espaço foi restaurado e recebe eventos e sessões de cinemaConstruído em 1903 por ferrovia britânica em Paranapiacaba, o espaço foi restaurado e recebe eventos e sessões de cinema

Cine Lyra: conheça o 1º cinema de SP, com 122 anos de história

2026/03/14 17:00
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O Brasil disputa no domingo (15.mar.2026) 4 indicações ao Oscar com “O Agente Secreto”, do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho. O país chega à premiação em bom momento para o cinema nacional: são 3.554 salas em funcionamento, público que saltou de 3,7 milhões para 12,6 milhões de espectadores em 1 ano e cinemas históricos que voltam à vida. É nesse cenário que o Poder360 foi até Paranapiacaba, no interior paulista, conhecer o Cine Lyra –o 1º cinema do Estado de São Paulo, que voltou a funcionar após décadas parado.

Assista a esta reportagem (3min15s):

O Lyra é um prédio de madeira erguido pela companhia inglesa São Paulo Railway em Paranapiacaba, a 50km de São Paulo. Foi ali, na vila serrana de 2.458 habitantes, que o cinema nasceu no Estado em 1903.

O 1º CINEMA DO ESTADO

Naquele ano, a São Paulo Railway, empresa britânica que operava os trilhos da região, construiu o Cine Lyra para entreter seus ferroviários. O espaço se tornou o 1º cinema do Estado de São Paulo e o 2º do Brasil. O 1º, o Cinematographo Edison, ficava no Rio de Janeiro e foi inaugurado em 1897.

No entanto, o Cine Lyra nunca foi só uma sala de projeção. Abrigava também a Sociedade Recreativa Lyra da Serra, com bailes, aulas de música, festas de aniversário, casamentos e a banda da cidade. O Lyra era o coração cultural da vila.

Copyright Bruno Gaudencio/Poder360 – 31.jan.2026
Placa em frente ao Cine Lyra conta a história da Sociedade Recreativa Lyra da Serra, fundada em fevereiro de 1903 para atividades culturais dos ferroviários de Paranapiacaba

Ele [o Cine Lyra] estava entre os 2 principais locais da economia paulista“, afirma Eric Tadeu Lamarca, assessor da subprefeitura local. Na época, Paranapiacaba era ponto de conexão entre os polos econômicos paulistas: o porto de Santos e a capital. 

Eric diz ao Poder360 que mesmo que a vila fosse isolada tanto da capital quanto de Santos, Paranapiacaba era pulsante e ditava novidades da época. Há registro de que no início dos anos 1920, o superintendente da São Paulo Railway, William Speers, organizou no Lyra um evento beneficente que arrecadou fundos para a reforma e ampliação da Santa Casa de São Paulo. “A vila era muito contemporânea“, afirma Eric.

Copyright Reprodução/Acervo do Museu Paulista da USP
Foto de época registra o salão do Cine Lyra lotado durante evento na vila de Paranapiacaba; o espaço era o coração cultural da comunidade ferroviária

ABANDONO E RESTAURO

O Cine Lyra funcionou como cinema até a década de 1930. Depois disso, foram décadas de abandono. O prédio deteriorou até que uma intervenção se tornou urgente: sem obras, o espaço se perderia. 

Eric Lamarca afirma que havia ainda outra dificuldade que decorreria da ruína do Lyra: “Se o prédio chegasse à perda total, as regras de patrimônio impediriam a reconstrução, porque não haveria mais estrutura original para preservar“.

Copyright Bruno Gaudencio/Poder360 – 31.jan.2026
Eric Tadeu Lamarca, assessor da subprefeitura de Paranapiacaba, no interior do Cine Lyra restaurado. Eric afirma que a criação do cinema foi reflexo de estar entre os 2 principais locais da economia paulista: a capital e Santos

A restauração foi concluída em 2024, com R$ 2 milhões do Iphan e R$ 3 milhões do Fundo Municipal de Cultura. O imóvel é tombado e integra o plano de revitalização da Vila de Paranapiacaba.

Hoje, o Cine Lyra recebe eventos, sessões esporádicas de cinema e o Festival de Paranapiacaba. Em 2025, o festival reuniu mais de 10.000 pessoas no espaço. A entrada é gratuita, e é possível chegar de trem pelo Expresso Turístico que parte da Estação da Luz, em São Paulo, num vagão da década de 1960 movido a eletrodiesel.

O CINEMA BRASILEIRO EM 2025

O Cine Lyra não poderia ter sido reaberto em momento mais simbólico. Em 2025, o Brasil bateu recorde de salas de cinema em funcionamento: 3.554 espaços exibindo filmes todos os dias, segundo a Ancine. O número vinha crescendo desde 2014, despencou em 2020 com a pandemia e voltou a subir nos anos seguintes.

O público para filmes nacionais também cresceu: saltou de 3,7 milhões, em 2024, para 12,6 milhões de espectadores em 2025.

Parte relevante desse crescimento veio com o lançamento de “Ainda Estou Aqui“, de Walter Salles. De 2024 a 2026, o filme acumulou 138.690 sessões, 5,7 milhões de espectadores e R$ 117 milhões em bilheteria e, de quebra, ganhou o Oscar de Melhor Filme Internacional. Os dados são da Ancine. Agora, “O Agente Secreto” tenta repetir a façanha.

E outro ponto positivo, os cinemas de rua no Brasil vivem um movimento de resistência e revitalização com reaberturas de edifícios históricos e novas iniciativas focadas em cultura e acessibilidade, especialmente no Rio de Janeiro e São Paulo. Em 2027, depois de quase 40 anos fechado, o histórico cinema no edifício Copan, projetado por Oscar Niemeyer, reabrirá em 2027 sob tutela do banco digital Nubank e contará com espaço multiuso de cinema, peças de teatro e eventos.

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