Levantamento da UFRJ identifica 123 canais brasileiros com conteúdo contra mulheres e mais de 23 milhões de inscritosLevantamento da UFRJ identifica 123 canais brasileiros com conteúdo contra mulheres e mais de 23 milhões de inscritos

Canais misóginos no Youtube somam mais de 130 mil vídeos

2026/03/14 17:00
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Pelo menos 123 canais brasileiros que disseminam conteúdo contra mulheres estão ativos no YouTube, mostra um levantamento do NetLab (Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais) da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Juntos, eles somam mais de 23 milhões de inscritos e têm cerca de 130 mil vídeos publicados.

Os dados divulgados na última semana, logo após o Dia Internacional da Mulher, atualizam um levantamento feito em 2024, quando 137 canais foram mapeados. De lá para cá, apenas 14 canais foram removidos, por iniciativa dos donos ou da plataforma. Além disso, 20 canais mudaram de nome, mas alguns deles continuam produzindo conteúdo misógino mesmo sob a nova alcunha.

O NetLab destaca que, além de continuarem em atividade, esses espaços ganharam novos seguidores. A quantidade de pessoas inscritas nos 123 canais que restaram aumentou 18,5%, desde abril de 2024, com o incremento de mais de 3,6 milhões de novas assinaturas.

Os vídeos também rendem dinheiro para os criadores. Considerando a primeira amostra, coletada em 2024, cerca de 80% tinham alguma estratégia de monetização, sejam as formas oferecidas pela plataforma, como anúncios e programa de membros, ou alternativas, como vendas de e-book ou transferências via pix.

Para a pesquisadora do NetLab, Luciane Belín, isso mostra como a misoginia se tornou um nicho de negócio.

“Não é só a opinião deles, mas também é uma oportunidade de ganhar dinheiro, pautada na humilhação, inferiorização, na subjugação de mulheres”, explicou.

Luciane explica que o grupo criou um protocolo para identificar diversos tipos de discurso misógino.

“Nós trabalhamos com um conceito de misoginia que não está só concentrado no ódio e na promoção da violência direta, mas também nos sentimento de desprezo e aversão, e na ideologia que parte do pressuposto de que as mulheres precisam ser subjugadas e inferiorizadas”, complementa.

O relatório mostra que a popularização desses vídeos é um fenômeno recente. Apesar de o vídeo mais antigo ter sido postado em 2018, 88% deles foram publicados a partir de 2021, e pouco mais da metade (52%) entrou na plataforma de janeiro de 2023 a abril de 2024. Já de abril para cá, cerca de 25 mil novos vídeos foram postados.

Para definir quais canais disseminam conteúdo misógino, o estudo considerou apenas aqueles que continham pelo menos três vídeos com ao menos uma manifestação de ódio às mulheres. O tema mais recorrente, no qual 42% dos vídeos foram enquadrados, foi “Desprezo às mulheres e estímulo à insurgência masculina”. 

Nessa categoria, foram incluídos vídeos “que conclamam os homens a não se deixarem dominar pelas mulheres”, ao mesmo tempo em que estimulam que elas sejam tratadas com desprezo. Os conteúdos também disseminam a ideia de que as iniciativas por igualdade de gênero são estratégias de dominação social contra os homens.

“A gente encontrou conteúdos muito explícitos. Quando a gente olha para as palavras, por exemplo, que são usadas para descrever as mulheres, a gente identifica termos como ‘burra’ e ‘vagabunda’ que são muito usados. Isso foi, de certa forma, até uma surpresa, porque a gente pensava que a plataforma derrubava esse tipo de conteúdo”, diz Luciane.

Mas a pesquisadora explica que alguns influenciadores também utilizam estratégias para dissimular seu conteúdo, como o uso de abreviações e apelidos. A palavra “mulher”, por exemplo, é substituída por “colher”, e mães solo, um dos grupos mais atacados, são chamadas de “msol”.

“Às vezes, a opinião não é expressada de forma verbal, mas quando você olha para as imagens que ilustram os vídeos, elas mostram a mulher ajoelhada aos pés do homem ou hipersexualizada com decotes imensos e etc”, complementa.

Ela cobra mais responsabilização das plataformas: “A criminalização da misoginia seria um caminho que poderia contribuir para minimização desses discursos, mas além da questão da criminalização, a gente também precisa continuar discutindo qual é o papel das plataformas em relação à soberania do país mesmo. Se é crime fora da internet, precisa ser crime dentro da internet”.

Google

O Google Brasil, empresa que administra o YouTube, disse que solicitou ao NetLab/UFRJ que compartilhasse todos os vídeos e canais nos quais baseiam suas pesquisas, mas os pesquisadores se recusaram.

De acordo com a pesquisadora do laboratório Luciane Bellin, a lista de canais não foi divulgada para evitar que qualquer vazamento pudesse ocorrer e preservar a integridade da equipe, já que o laboratório poderia ser considerado responsável pela derrubada dos canais, e as pesquisadoras sofrerem represálias. No entanto, ela diz que a metodologia utilizada para encontrar esses conteúdos foi disponibilizada e poderia ser reproduzida pelos profissionais da plataforma.

Um porta-voz do YouTube declarou, via assessoria de imprensa que discurso de ódio, assédio e cyberbullying não são permitidos na plataforma.

“Por exemplo, nossas políticas de discurso de ódio proíbem claramente o conteúdo que promove violência ou ódio contra indivíduos ou grupos com base em certos atributos, incluindo gênero. Estamos constantemente avaliando nossas políticas e sistemas conforme a necessidade para proteger nossa comunidade”, continua a nota.

A plataforma informou ainda que somente no quarto trimestre de 2025, encerrou mais de 37.000 canais e removeu 151 mil vídeos por violarem as políticas contra discurso de ódio e outros 10.855 canais e 840 mil vídeos por assédio e cyberbullying.


Com informações da Agência Brasil

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