A disparada das cotações internacionais do petróleo impulsionada pelos conflitos no Oriente Médio e pelas interrupções no tráfego do Estreito de Ormuz ampliou as dúvidas sobre possíveis impactos nos preços de combustíveis no Brasil. Antes da escalada das tensões, em 27 de fevereiro, o petróleo Brent era negociado entre US$ 71 e US$ 73 por barril. Com o agravamento do conflito, a cotação chegou a US$ 120, diante da redução na oferta global.
Apesar de a Petrobras (PETR3; PETR4) ter grande participação na produção nacional de gasolina e diesel, o abastecimento também depende de importações e da atuação de empresas privadas no setor.
Na última sexta-feira (6), a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, afirmou que a empresa acompanha os desdobramentos do mercado internacional antes de qualquer decisão sobre mudanças nos preços nas refinarias.
“Estamos acompanhando de perto todos esses acontecimentos e vamos reagir no momento certo”, disse ela. “Precisamos ter certeza de que não se trata de uma tendência passageira e de que o cenário é razoavelmente estável para nos permitir seguir na direção correta.”
Nesta terça-feira (10), entretanto, os preços do petróleo recuaram mais de 10% depois que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou que a guerra contra o Irã poderia terminar “muito em breve”. Com isso, o Brent voltou a ser negociado abaixo de US$ 90 por barril.
A estratégia da Petrobras busca evitar que oscilações rápidas do mercado internacional sejam repassadas imediatamente ao consumidor brasileiro. A companhia informou ainda que considera, além das cotações externas, fatores como as margens de seus clientes.
Na sexta-feira (6), a empresa informou que está confortável com o patamar atual de preços e não prevê mudanças no curto prazo.
Mesmo com as incertezas sobre o comportamento do petróleo, tanto a Petrobras quanto a Associação Brasileira de Importadores de Combustíveis (Abicom) afirmaram que não há risco de desabastecimento no país neste momento.
Segundo a estatal, os estoques atuais são considerados suficientes e existe a possibilidade de importação de petróleo e derivados de fornecedores fora da região afetada pelo conflito.
O valor pago pelos consumidores nos postos depende de diversos fatores ao longo da cadeia de produção e distribuição. De acordo com a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), o preço final inclui tributos federais e estaduais, custos logísticos, despesas operacionais das empresas e a mistura obrigatória de biocombustíveis, além das margens de distribuição e revenda.
Entre esses elementos, os tributos como PIS/Pasep, Cofins e Cide fazem parte da tributação federal, enquanto o ICMS é cobrado pelos estados.
Segundo a Petrobras, no caso da gasolina vendida ao consumidor, cerca de 28,7% do valor final corresponde à parcela da companhia. A margem de distribuição e revenda representa 20,1%, enquanto o etanol anidro misturado ao combustível corresponde a 15,4%. O imposto estadual responde por cerca de 25% do preço, e os tributos federais somam 10,8%.
No diesel, a participação da Petrobras representa aproximadamente 46% do valor final. A margem de distribuição e revenda corresponde a 16,1%, o biodiesel representa 13,5%, o ICMS equivale a 19,2% e os impostos federais a 5,3%.
O mercado brasileiro de combustíveis é formado por diversas refinarias responsáveis pela transformação do petróleo em derivados utilizados na economia.
Dados da ANP indicam que a Refinaria de Paulínia (Replan), pertencente à Petrobras, possui a maior capacidade de processamento do país, respondendo por cerca de 19% da produção nacional. A unidade produz diesel, gasolina, querosene de aviação, gás liquefeito de petróleo (GLP) e outros derivados.
No ranking da ANP, a refinaria de Mataripe, controlada pela Acelen, aparece na segunda posição em 2025 em volume processado. Em seguida está a Refinaria de Duque de Caxias (Reduc), também operada pela Petrobras.
Os dados mais recentes da ANP indicam variações moderadas nos preços ao consumidor: entre os dias 1º e 7 de março, a gasolina comum registrou aumento de 0,32%, chegando à média nacional de R$ 6,30 por litro. No mesmo período, o diesel S10 teve alta de 0,99%, alcançando média de R$ 6,15 por litro.
A Petrobras reduziu o preço da gasolina nas refinarias em janeiro deste ano em R$ 0,14, equivalente a 5,2%, fixando o valor em R$ 2,57 por litro. O reajuste anterior havia ocorrido em julho de 2024.
Para o diesel, a última redução ocorreu em maio de 2025, quando o preço foi ajustado para R$ 3,27. O aumento mais recente foi aplicado em janeiro de 2025.
Levantamentos da Abicom apontam que, no fechamento de sexta-feira (6), o diesel comercializado pela Petrobras estava 85% abaixo da referência internacional, o que corresponde a uma diferença de R$ 2,74. No caso da gasolina, o preço interno estava 49% inferior ao internacional, com diferença de R$ 1,22.
A entidade chegou a recomendar reajustes nessas magnitudes, de R$ 1,22 por litro para a gasolina e ede R$ 2,74 para o diesel, devido à diferença entre os preços internos e os valores internacionais.
Estimativas da consultoria StoneX indicaram que, na tarde de segunda-feira (9), o diesel estava 59,9% abaixo da média global, ou cerca de R$ 1,94 de diferença. Para a gasolina, o desconto era de 44,7%, equivalente a R$ 1,13.
A alta do petróleo costuma provocar um efeito em sequência na economia. O primeiro impacto aparece no preço dos combustíveis, mas rapidamente se estende para transporte, logística e custos de produção em diversos setores.
Como o valor do frete entra na formação de preços de alimentos, produtos industriais e serviços, a pressão tende a se espalhar para o consumidor final.
O transporte marítimo também tende a ficar mais caro em cenários de conflito. Seguradoras passaram a retirar cobertura para navios que operam na região do Golfo Pérsico, o que aumenta o custo das operações.
A valorização do petróleo no mercado internacional também tem reflexos diretos sobre o agronegócio, uma vez que o diesel é amplamente utilizado em máquinas agrícolas, transporte de grãos e diversas operações no campo. No custo total da produção agrícola, diesel e lubrificantes costumam representar cerca de 5% das despesas.
Em entrevista à Reuters, o diretor-técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Bruno Lucchi, afirmou que a recente alta da commodity também tem gerado preocupação entre produtores: “Agora o principal problema é valor do diesel, vimos o petróleo saindo de 80 para o patamar de 100 dólares o barril, isso tem gerado alarde no campo”.
O momento coincide com um período de demanda elevada no campo, devido ao escoamento da safra recorde de soja, à colheita ainda em andamento e ao plantio da segunda safra de milho.
Produtores também relataram dificuldades de entrega de diesel no Rio Grande do Sul. A ANP informou que irá investigar denúncias envolvendo problemas de abastecimento e aumentos de preços.
Além disso, o Brasil importa aproximadamente 30% do diesel que consome, o que aumenta a exposição do mercado interno às oscilações internacionais.
O Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) divulgou nesta terça-feira (10) novos valores do Preço Médio Ponderado ao Consumidor Final (PMPF), indicador utilizado pelos estados para calcular o ICMS incidente sobre combustíveis.
Os novos valores passam a valer a partir de 16 de março e abrangem produtos como querosene de aviação (QAV), etanol hidratado (AEHC), gás natural veicular (GNV), gás natural industrial (GNI) e óleo combustível.
Entre os dez estados com dados divulgados, Roraima apresenta o maior preço de referência para o querosene de aviação, com R$ 6,99 por litro. O menor valor foi registrado no Rio de Janeiro, com R$ 2,44.
No etanol hidratado, o preço mais elevado foi identificado no Amapá, com R$ 5,89 por litro, enquanto o menor valor aparece no Paraná, com R$ 4,30.
O Distrito Federal registrou o GNV mais caro do país, a R$ 6,78 por metro cúbico. O Amazonas apresentou o menor valor, de R$ 3,13.
A tabela também inclui valores para o gás natural industrial em dois estados: Amazonas, com R$ 1,82 por metro cúbico, e Mato Grosso, com R$ 3,67.
Já o óleo combustível foi registrado em R$ 4,93 por litro na Paraíba e R$ 4,08 em Rondônia.
Confira a atualização dos valores:
O avanço das cotações do petróleo também pode influenciar indicadores macroeconômicos no Brasil. Segundo economistas do BTG Pactual, o aumento da commodity pode acrescentar até 0,4 ponto percentual à inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2026.
O banco mantém, por enquanto, projeção de inflação de 4,1%, mas afirma que o petróleo no patamar atual cria um viés de alta para os preços.
“O petróleo no nível atual traz viés altista a nossa projeção do ano em cerca de 40 bps. Ainda não incorporamos alta de gasolina no nosso cenário nem um repasse permanente do petróleo para os preços livres”, diz o relatório.
Por outro lado, o cenário pode favorecer a balança comercial brasileira, já que o petróleo é um dos principais produtos exportados pelo país. Nos cálculos do banco, caso o Brent tenha média de US$ 85 por barril ao longo do ano, o superávit comercial pode aumentar em cerca de US$ 9 bilhões.
Com esse cenário, o saldo da balança poderia atingir aproximadamente US$ 84 bilhões em 2026. Em um cenário de petróleo a US$ 100 por barril, o superávit poderia alcançar cerca de US$ 95 bilhões.
Projeções da Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA) divulgadas nesta terça-feira indicam que o Brent pode permanecer acima de US$ 95 por barril nos próximos dois meses em função das tensões no Oriente Médio.
A previsão é que os preços recuem para abaixo de US$ 80 por barril no terceiro trimestre e para aproximadamente US$ 70 até o fim do ano.
Segundo a entidade, eventuais interrupções no transporte de petróleo pelo Estreito de Ormuz poderiam reduzir temporariamente a produção da região. A expectativa é que essas paralisações diminuam gradualmente à medida que as rotas de transporte sejam normalizadas.
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