A alta de cerca de US$ 10 no preço do barril desde o início do ano é um lembrete claro de como o mercado global de energia permanece altamente sensível a qualquer ameaça envolvendo o Irã.

Mesmo depois de anos de sanções impostas pelos Estados Unidos, que reduziram significativamente sua presença formal no comércio internacional de petróleo, Teerã segue no centro do radar de investidores, governos e grandes empresas do setor.

Isso acontece porque a importância do Irã para o sistema energético global vai muito além do volume que exporta hoje. O país detém a quarta maior reserva comprovada de petróleo do mundo, um ativo estratégico que o coloca, estruturalmente, entre os principais atores do mercado, independentemente das restrições comerciais em vigor.

Atualmente, o Irã produz cerca de 3,45 milhões de barris por dia, menos de 3% da oferta global. Isoladamente, esse número não seria suficiente para provocar um choque de oferta. Mas o mercado sabe que o risco iraniano não está apenas nos barris disponíveis, mas sim na capacidade do país de influenciar a estabilidade energética de uma região vital para o mundo.

Quase todas as exportações de petróleo iraniano são direcionadas à China, principalmente para refinarias independentes que aceitam comprar o produto com desconto. Esse fluxo ajuda a sustentar a economia iraniana e, ao mesmo tempo, garante vantagem competitiva para refinadores chineses. Qualquer interrupção nesse canal teria efeitos indiretos sobre custos, margens e inflação energética, especialmente na Ásia.

O principal fator de preocupação, no entanto, está na geografia. O Irã exerce influência direta sobre o Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 21 milhões de barris de petróleo por dia, incluindo exportações de gigantes como Arábia Saudita, Iraque, Kuwait e Emirados Árabes Unidos. Trata-se do gargalo mais sensível da infraestrutura global de energia.

Além disso, o país mantém presença e apoio a milícias armadas em diferentes pontos do Oriente Médio, o que amplia o risco de ataques a instalações, oleodutos e rotas logísticas. É essa combinação (reservas gigantescas e posição estratégica) que faz com que o Irã continue sendo tratado como um risco sistêmico pelo mercado.

Mesmo que a perda do petróleo iraniano, isoladamente, pudesse ser absorvida no curto prazo, uma escalada regional teria potencial para desorganizar fluxos, elevar prêmios de risco e pressionar os preços globalmente. É por isso que, apesar das sanções e do isolamento, o Irã permanece grande demais para ser ignorado quando o assunto é o fornecimento mundial de petróleo.

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