Os episódios recorrentes de falta de energia na cidade de São Paulo têm colocado em xeque a possibilidade de renovação do contrato de distribuição com a Enel Brasil. Embora o debate não seja inédito, a discussão tem ganhado novos contornos no mercado financeiro, com uma forte desvalorização das debêntures da companhia.
Refletindo essa perda de valor, os spreads dos títulos da Enel Brasil com vencimento em 2031 e 2032 saltaram, na semana passada, 1,22 ponto percentual (p.p.) e 0,84 p.p., respectivamente, para 1,87% e 1,98%.
No mesmo período, a mediana do spread de crédito das debêntures isentas caiu 10 p.p. para -0,34%, de acordo com dados do Credit Guide, bem abaixo dos patamares dos papéis da Enel.
O gatilho para a desvalorização dos títulos da Enel Brasil foi um relatório da Fitch Ratings que manteve o rating AAA(bra) - melhor classificação de crédito - da companhia, mas colocou a nota de crédito em observação negativa, em meio às incertezas relacionadas à sua operação em São Paulo.
“As longas interrupções recorrentes no fornecimento de energia elevam a pressão por caducidade ou pela não renovação do contrato”, diz a agência de classificação de risco.
A distribuição de energia em São Paulo é a principal operação da Enel Brasil e a perda desse contrato, segundo a Fitch, “pode ter impacto material sobre o perfil de crédito do grupo e resultar em rebaixamentos em múltiplos graus”.
O risco de o contrato não ser renovado em São Paulo, na avaliação da Fitch, se tornou maior a partir dos processos especiais de fiscalização regulatória pela Aneel, previstos até março deste ano, e o “agravamento das tensões políticas”.
“A não renovação até junho de 2027 pode desencadear o vencimento antecipado de dívidas com terceiros caso não seja vinculada garantia da Enel Brasil ou fiança bancária”, pontua a agência.
De acordo com fontes consultadas pelo NeoFeed, alguns gestores de crédito tinham alguma exposição aos papéis da companhia, dado seu rating elevado, mas o impacto foi limitado na indústria de fundos.
“O papel já faz algum tempo que está mais concentrado em pessoa física, em função dos spreads historicamente baixos na emissão”, disse o analista de uma grande gestora de crédito. “Mas estamos acompanhando.”


