Um ano atrás, em seu tradicional relatório de maiores riscos globais, a Eurasia previu a volta da lei da selva nas relações internacionais. Olhando pelo retroviUm ano atrás, em seu tradicional relatório de maiores riscos globais, a Eurasia previu a volta da lei da selva nas relações internacionais. Olhando pelo retrovi

Os grandes riscos de 2026, segundo a Eurasia. (É de arrancar os cabelos)

2026/01/06 05:29

Um ano atrás, em seu tradicional relatório de maiores riscos globais, a Eurasia previu a volta da lei da selva nas relações internacionais.

Olhando pelo retrovisor, é difícil discordar.

O ano de ‘salve-se quem puder’ na geopolítica teve seu gran finale no último fim de semana, com a prisão de Nicolás Maduro e a demonstração do empenho de Donald Trump em fazer valer a hegemonia americana nas Américas, do Alasca à Patagônia.

Para o ano que acaba de começar, o risco número 1 são as consequências da revolução política em curso nos EUA, disse a Eurasia num novo relatório publicado hoje.Ian Bremmer  

“Na história recente, nunca testemunhamos um presidente americano tão comprometido e tão capaz de mudar o sistema político e, consequentemente, o papel dos EUA no mundo,” escreveram Ian Bremmer e Cliff Kupchan, o presidente e o chairman da consultoria. “Independentemente de a revolução de Donald Trump ter sucesso ou fracassar, as implicações para os EUA e o mundo serão sentidas por uma geração.”

De acordo com os analistas, o país se tornou uma nação imprevisível na qual não se pode confiar. Neste mundo da selva, a Eurasia acredita que a China sai fortalecida, assim como a Índia e as nações do Golfo Pérsico.

“Tudo isso está acontecendo em meio a uma revolução tecnológica extraordinária, um boom da AI que representa a maior oportunidade e o maior perigo que a humanidade já criou,” disseram. “E isso ocorre praticamente sem governança, alinhamento ou coordenação.”

A seguir, uma síntese dos dez maiores riscos de 2026 elencados pela Eurasia – e as implicações para o Brasil, segundo o time local da consultoria.

1- Revolução política nos EUA

Trump tenta desmantelar os freios e contrapesos institucionais que controlam o alcance de suas ações. “O que começou como a quebra tática de normas se tornou uma transformação sistêmica que vai além da política partidária agressiva ou do abuso de Poder Executivo,” disseram os analistas.

A Eurasia listou como exemplos o envio da Guarda Nacional para combater a violência em algumas cidades à revelia do poder local ou da Justiça, o fechamento de agências federais, a ‘fritura’ de servidores independentes e o congelamento de verbas para universidades.

Com três anos de Governo adiante tendo os tendo os democratas como favoritos para conquistar a maioria na Câmara nas eleições de meio de mandato em novembro, “Trump e seu círculo se tornarão mais, e não menos, propensos a correr riscos em seus esforços para consolidar o poder do Presidente e consolidar o seu legado antes que a janela de oportunidade se feche” – e a máquina governamental será usada agressivamente contra os adversários.

Mesmo que a revolução de Trump fracasse – como é provável –, não haverá um retorno pleno à situação que existia antes de seu segundo mandato.

“Os EUA já eram o sistema político estruturalmente mais disfuncional entre as democracias avançadas antes de Trump retornar ao cargo,” afirmou o relatório. “Ele é um sintoma, um beneficiário e um acelerador dessa disfunção, mas não a causou – e não vai consertá-la.”

Para a consultoria, antes de Trump apenas Franklin D. Roosevelt, que governou de 1933 a 1945, tinha promovido uma revolução política tão profunda. Tal como hoje, foi um período de conflitos internacionais e crises profundas.

Com relação aos efeitos sobre o Brasil, a Eurasia disse que o país “permanece estruturalmente vulnerável a choques externos” se não houver uma consolidação fiscal mais robusta.

“A atual trajetória deixa o Brasil exposto a mudanças repentinas no apetite global por risco, com espaço limitado para amortecer os choques.”

2- A força do elétron

As tecnologias definidoras do século 21 dependem do poder dos elétrons: veículos elétricos, drones, robôs, baterias – e, obviamente, a inteligência artificial.

“Domine esse conjunto tecnológico e você poderá construir quase tudo o que a economia moderna exige,” disseram os analistas. “Caso contrário, você estará comprando o futuro de outra pessoa.”

Embora os EUA ainda liderem o desenvolvimento de modelos avançados de AI, o domínio da China na infraestrutura eletroindustrial poderá ser decisivo para alimentar e implantar essa tecnologia em larga escala. “A AI requer quantidades maciças de eletricidade. A China produz 2,5 vezes mais eletricidade do que os EUA e continua se distanciando ainda mais.”

Para a Eurasia, os americanos insistem em fontes energéticas do século 20, enquanto os chineses constroem a infraestrutura do século 21. “Os EUA apostam em moléculas; os chineses, nos elétrons.”

3- A ‘Doutrina Donroe’

Não é um erro de grafia. É a velha Doutrina Monroe – ‘A América para os americanos’ – ressuscitada e repaginada por Trump, que já se apropriou orgulhosamente do neologismo.

As implicações da ‘Doutrina Donroe’ são evidentes: ataques a barcos de traficantes, sanções ao Presidente da Colômbia e ao ministro do STF Alexandre de Moraes, resgate financeiro à Argentina de Javier Milei. “O ponto central é a Venezuela, onde uma aposta arriscada já garantiu a Trump a vitória estampada nas manchetes.”

Se o experimento venezuelano funcionar, Cuba pode ser o próximo alvo. A Colômbia provavelmente será afetada – principalmente se um conservador alinhado a Trump não sair vitorioso na eleição deste ano.

Para a Eurasia, o grande objetivo é reduzir o envolvimento chinês nas Américas – mas se Trump forçar a mão poderá levar países a se aproximarem ainda mais de Pequim.

A importância estratégica do Brasil oferece uma proteção contra as investidas de Trump, mas a eleição deste ano será observada de perto.

“O risco mais significativo envolve potenciais reações dos EUA a ações do STF percebidas como politicamente tendenciosas contra candidatos de direita,” disse a Eurasia. “Mas qualquer resposta vista como interferência flagrante ou indevida poderia ter a consequência não intencional de beneficiar a candidatura de Lula à reeleição.”

4- Europa ameaçada

O cenário é de governos impopulares incapazes de enfrentar os desafios na segurança e na economia, enquanto a direita populista avança nas urnas.

França, Reino Unido e Alemanha, as maiores potências da região, dão mostras de que são comandadas por “governos que não conseguem governar.”

Sem poder mais contar com a proteção dos EUA, os europeus nunca estiveram tão vulneráveis a “ataques híbridos” – principalmente vindos da Rússia – desde o fim da Guerra Fria (veja o risco abaixo).

5- O segundo front da Rússia

O maior risco para a Europa não é mais a guerra na Ucrânia, e sim a guerra híbrida travada entre a Rússia e a OTAN.

Essa será a estratégia de Vladimir Putin para desgastar os europeus e reduzir sua disposição de ajudar a Ucrânia. A Rússia já usou drones para sobrevoar e intimidar a Polônia e a Romênia. Além disso, provavelmente esteve por trás dos ataques cibernéticos e voos de drones sobre aeroportos da Europa Ocidental.

Uma guerra aberta é improvável, mas não um risco desprezível. Agentes russos vão operar fortemente para interferir nas eleições europeias marcadas para este ano. Por três anos, o Ocidente tratou os ataques híbridos como um “incômodo administrável” – mas “a margem para erro está ficando mais estreita.”

6- Capitalismo de estado com características americanas

Trump não é o primeiro governante americano a defender uma política industrial, mas ao contrário dos antecessores faz uso do “capitalismo de estado” de maneira personalista – e as empresas que não lhe fazem deferência acabam em uma posição menos vantajosa.

“Trump está selecionando vencedores e perdedores em uma escala nunca vista na história moderna dos EUA.”

7- A armadilha da deflação na China

A espiral deflacionária chinesa vai se aprofundar em 2026, e Pequim não deverá agir decisivamente para evitá-la. Para a Eurasia, isso deverá deteriorar o padrão de vida doméstico e exportar problemas para o mundo.

Uma das causas dessa armadilha é a competitividade destrutiva entre as empresas. Mais de um quarto das companhias listadas não dá lucro. “Xi Jinping priorizará o controle político e a supremacia tecnológica em detrimento do estímulo ao consumo e das reformas estruturais que poderiam quebrar o ciclo deflacionário,” escreveram os analistas.

Para o Brasil, a guerra de preços pode ajudar no combate à inflação, mas haverá impacto em alguns setores industriais – principalmente aço, petroquímica, vestuário e automóveis.

8- A AI ‘comerá’ seus usuários

Sob pressão para gerar receita e sem restrições, diversas empresas líderes em inteligência artificial adotarão modelos de negócios que ameaçam a estabilidade social e política – seguindo o roteiro destrutivo das mídias sociais, só que mais rápido e em maior escala.

Não restam dúvidas de que a AI vai desencadear avanços notáveis em campos como biotecnologia, robótica, materiais avançados, eficiência energética e exploração espacial. Mas, segundo a consultoria, a “combinação de expectativas infladas de curto prazo, pressão para monetizar e falta de salvaguardas regulatórias e de governança significa que a AI americana está prestes a impor seus custos à sociedade antes de entregar os ganhos prometidos.”

9- Acordo zumbi na América do Norte

O acordo entre Estados Unidos, México e Canadá (USMCA, antigo NAFTA) não deve ser prorrogado e poderá ser extinto por Trump.

A indefinição manterá no escuro as empresas e os governos dos países vizinhos. As negociações passarão a ser bilaterais. “Por que se comprometer com um acordo se a abordagem atual entrega resultados para o Presidente dos EUA e nem o Canadá nem o México podem se dar ao luxo de desistir?”

10- A água como arma

A água vem se tornando o recurso mais disputado do planeta. “Temperaturas mais elevadas e populações mais irritadas dificultam o consenso quando ele mais importa,” afirmou a Eurasia.

Há uma série de focos de possíveis conflitos que poderão ser detonados quando houver uma crise no abastecimento.

“Num mundo ‘G-Zero,’ onde nenhuma potência ou grupo de potências está disposto e apto a construir infraestrutura de governança global, a escassez torna-se uma arma.”

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